Descrição
ÒYE, conceito em ioruba que significa entendimento, dá nome ao livro do artista Ayrson Heráclito que, organizado pelo curador Marcelo Campos, reúne mais de três décadas de produção do artista baiano, atravessando fotografia, performance, instalação, vídeo e escultura.
Ayrson Heráclito: Òye propõe uma imersão abrangente em sua obra que articula corpo, memória e espiritualidade. Suas práticas investigam as cosmologias afro-diaspóricas e tensionam os modos de representação do sagrado refletindo sobre como tornar visível aquilo que, por natureza, também se constrói no segredo?
Estruturado em sete eixos conceituais, como Ẹ̀KỌ́, que remete à educação, ORÍKÌ, entendido como palavra-força, e Ọ̀LÀJÚ, associado a uma ideia de modernidade africana pré-colonial, dentre outros, o livro propõe diferentes caminhos de leitura e aproximação com a obra do artista. Nesse percurso, evidencia-se uma produção marcada pela reinvenção contínua, em obras que se desdobram em múltiplos suportes e retornam ao longo do tempo, como Transmutação da carne, projeto emblemático que atravessa performance, vídeo e fotografia em diferentes momentos de sua trajetória.
Com textos de Marcelo Campos e do próprio artista, a publicação reflete uma obra que inscreve no corpo as marcas da história colonial ao mesmo tempo em que afirma a potência das culturas afro-atlânticas. Ayrson Heráclito: Òye se configura, assim, como um convite à experiência sensível e crítica de um pensamento artístico que articula ancestralidade, matéria e imagem.
Sobre o artista
Ayrson Heráclito nasceu em Macaúbas, Bahia, em 1968, e vive entre Cachoeira e Salvador. Artista visual, curador e professor na Universidade Federal do Recôncavo Baiano (UFRB) e é PHD em Comunicação e Semiótica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (USP), desenvolve uma prática multidisciplinar que atravessa performance, fotografia, vídeo e instalação, com foco nas relações entre cultura afro-brasileira, espiritualidade e diáspora africana. Sua obra possui ampla circulação nacional e internacional, com participações em importantes exposições, como as Bienais de Veneza de 2017 e 2026, a Bienal de São Paulo em 2023 e a Bienal de Havana em 2025, além de mostras em instituições como o Museu de Arte do Rio, a Pinacoteca de São Paulo e o El Museo del Barrio, em Nova York. Entre suas exposições individuais recentes, destacam-se Yorùbáiano, apresentada no Museu de Arte do Rio e na Pinacoteca de São Paulo, e Oríkì Ìwòran, realizada na Portas Vilaseca, no Rio de Janeiro. Em diálogo constante com a história da arte e com saberes ancestrais, Heráclito constrói uma produção que investiga o corpo como território simbólico e político, articulando matéria, ritual e memória.
Trechos
Trecho 1:
“Como um artista que vem de Vitoria da Conquista para estudar em Salvador nos anos 1980, Heráclito acompanhou e desenvolveu observações críticas sobre os tais modos de se ter a Bahia como evidência material, simbólica e imagética, pagos por um alto preço em uma cidade de contrastes econômicos. A política estudantil, por exemplo, o colocava militante, protestando contra as desigualdades sociais em manifestações urbanas. Se, por um lado, suas referências estão centradas em autoras e autores que mitificaram e narraram essa cidade, Heráclito manteve-se ávido leitor da bibliografia que vai de Luís dos Santos Vilhena a Hubert Fichte, atualizada pelas reflexões de Paul Gilroy e Patrícia de Santana Pinho; por outro, a obra deste artista se faz pela coragem de enfrentar os salões das elites com matérias orgânicas, ao mesmo tempo perecíveis e recicláveis, como na preparação de uma moqueca de arraia e nas roupas feitas de carne de charque, por exemplo.”
Trecho 2:
“A construção deste livro confere a Ayrson Heráclito mais um òye, como se produzíssemos uma compreensão sobre seus pensamentos e suas obras, mantendo-o em posição de orientação sobre a arte e a cultura brasileiras. Quem recebe òye partilha um àṣẹ e uma “força configurativa”, nos termos de Muniz Sodré, “capaz de determinar conteúdos, de gerar fatos, seja no nível material, mental ou simbólico”. Heráclito reelabora, há alguns anos, de modo precursor e renovado, ensinamentos e aprendizados (ẹ̀kọ́), imbuído de iniciativas que conferem beleza (ódára) a vivências afrocentradas, mas que ambiciona rever os próprios sentidos do que construímos enquanto civilização (ọ̀làjú) para o futuro.”



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