Mau humor não é pacote, diz a psicanálise –
Depois de muito pensar, cheguei a seguinte conclusão: quem sou eu na fila do pão para solicitar a alguém para escrever o prefácio de meu livro ou ter a expectativa de que alguém se empenharia em fazer. O prefácio de uma obra, é um ato muito sério e que uma vez efetivado, não há como voltar ao momento anterior. Uma vez feito, está feito. Afinal, ato é ato. Ato é tudo aquilo que se faz e que não há como voltar atrás.
Não me sinto à vontade, como não me cabe tentar colocar no colo de alguém a incumbência – o pacote de prefaciar meu livro. O livro é meu, as ideias são minhas. Imagino que, eventualmente, seja constrangedor para o eleito ter esse pacote lançado em seu colo.
Eu prefaciar meu livro, não é nem uma questão de vitimismo nem uma questão narcísica. É tão somente saber quais são os meus pacotes e quais não são – no caso prefaciar meu livro é um pacote meu e, também, é uma questão de bom senso.
Escrevi esse livro como uma forma de manifestar minha indignação frente as absurdidades que humanidade vem produzindo ou aceitando passivamente. Na qualidade de absurdidades, entendendo por absurdidades aquilo que se opõe à razão, tem-se a cada dia mais, sujeitos desorientados, perdidos de si mesmos e em busca do nada. Ora, se estão apartados de si mesmos, não sabem o que procuram e por não saberem o que procuram, aceitam qualquer coisa. Esses sujeitos não sabem quais
são os seus pacotes e quais não são e, assim, derrubam no colo dos outros pacotes que são seus e que são pesados, pesados porque estão na contramão do que a mídia diz que deveria ser. Em outras palavras, os pacotes pesados seriam: mau humor, tristeza, depressão, desemprego, fracassos e afins. O outro é quem é o responsável por tudo aquilo que é feito em termos de emocionalidade – sofrimento, dor e afins e, condenável em termos econômicos – desemprego, falta de dinheiro etc.
Não é leviano dizer que, todos os fracassos, sejam eles emocionais ou econômicos, comumente, são acompanhados, por pelo menos, uma fase de mau humor, além de outras manifestações emocionais que porventura possam ocorrer. Mas, o mau humor, está sempre presente. O sujeito de posse do mau humor – mau humorado, não tem a menor noção se o mau humor é um pacote dele ou não. Ele tenta se livrar desse pacote por um lado, atribuindo a responsabilidade pelo seu mal-estar ao outro e, por outro lado, tenta desovar seu mau humor no colo de outras pessoas. Em outras palavras, além do sujeito ter a ilusão de não ter a menor responsabilidade pelo que redundou em seu mau humor, ele ainda tenta dar vazão ao mau humor no trânsito, nos animais, nas relações interpessoais e afins. Alguém precisa pagar por sua incompetência psíquica.
Mau humor, não é pacote. Não é um objeto que o sujeito porta e que pode deixá-lo em qualquer lugar, a qualquer momento. Estado emocional e o sujeito são uma mesma coisa, uma existência só. Mas, ele está tão distante dele mesmo e, ainda por não ter o menor interesse nessa aproximação, se é que ele tem consciência da distância que, é que tem início – distribuições fartas de pacotes; relações em rede; adotantes de bebês reborns; identidades therians; identidades sem gênero (neutra); depressões; fobias; intolerâncias; euforia das indústrias de psicofármacos; obsessão por visibilidade; cracolândias; mimizentos e afins. É por este motivo que a sociedade, através da mídia, protege o sistema e responsabiliza o sujeito. Há uma produção em massa de identidades fugazes, de incertezas, de descaminhos, de medos. Neste contexto, o sujeito tem a ilusão de que, ingressando num desses grupos tudo isso magicamente passará. E nessa ilusão, ele se afasta cada vez mais dele mesmo e para fugir do mal-estar que ele é, não se concebe mais fora dessa massa.
Especificação: Mau humor não é pacote, diz a psicanálise
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