Escrevemos Quando as Musas Querem:
Quanto mais eu vivia, mais sentia que me transformaria em alguém em quem não poderia ser aplicado ao meu eu original, que não saberia nem saberei definir. Ressentia-me também de um sentimento de culpa pela dificuldade em lidar com demandas interpessoais, fragilizado, em cuja fluidez se desenvolvia uma massa informe, junto a uma luz brilhante que reagia sobre mim, deixando-me ainda mais distante, mais ausente. Ausência que ainda sinto em mim. Ao nascer-me, providenciaram um nome pelo qual seria conhecido e identificado pelo resto da minha vida. A data de meu nascimento se tornaria um ato oficial por ação de Cartório de Registro Civil, lavrada a certidão que não permitiria que se levantassem suspeitas ou dúvidas de que eu era um ser vivente, pleno de direitos e deveres. Essa certeza se desmancharia ao longo da minha existência, algo parecido com ser ou não ser de Hamlet. Era um ser na concretude que me fora possível, experimentando, desde já, o mal-estar do ser civilizado, revelado na sua incapacidade de aplacar os desatinos e todos os instintos da alma.