Arte e magia do caos: obra reunida de Austin Osman Spare
Descrição
Arte e magia do caos – obra reunida de Austin Osman Spare
“A ideia de publicar Austin Osman Spare no Brasil e fundar uma
editora independente nasceu no início de 2018, quando eu buscava autoras e autores que me movessem a ponto de elaborar um
projeto de publicação. Foi quando conheci o autor, e as primeiras
pesquisas já demonstraram o tamanho do desafio que eu teria de
encarar para fazer jus ao trabalho do magista.
O único livro disponível e de acesso relativamente fácil naquele momento era o
Lost Envoy: The Tarot Deck of Austin Osman Spare, uma coletânea de ensaios sobre
o autor e uma reprodução de todas as cartas do tarô que ele havia criado no início
do século XX, por volta de 1905-1906, e que ficou perdido durante quase 60 anos
após sua morte, em 1956. O baralho havia sido reencontrado em 2013 nos arquivos do pequeno museu do The Magic Circle, uma organização fundada em 1905
para promoção e desenvolvimento da mágica de palco.
No período em que Spare criou as cartas, por volta dos 20 anos de idade, seu trabalho começava a ganhar destaque em Londres — ele havia publicado sua primeira
obra, Terra Inferno, e já produzia ilustrações sob encomenda. De lá até o fim da vida,
Spare foi um dos artistas mais prolíferos da Inglaterra depois de William Blake.
Aos poucos, a ideia de publicá-lo foi sendo alimentada pela admiração e afinidade criadas de imediato pelos desenhos das cartas, e moldada pelo que seriam os
dois maiores desafios do projeto: reunir a obra mágico-visual do artista e traduzir
a arte textual do magista. Há desenhos, pinturas e ilustrações de Spare espalhados
pelo mundo inteiro, grande parte na mão de colecionadores particulares, e muitos
em diferentes museus, bibliotecas e galerias. Já a tradução de seus textos seria um
desafio à parte — Spare é conhecido por ter uma escrita subjetiva, transgressora e
polissêmica, em muitos momentos feita em estado de transe, de modo automático, com alterações repentinas de vozes e pessoas, e com uma estrutura de idas e vindas
que às vezes nos dá a sensação de estarmos avançando e retrocedendo casas numa
partida de jogo de tabuleiro durante um passeio de montanha-russa.
Mas o que Austin Osman Spare tem a ver com magia do caos? Nada. E tudo.
A dificuldade de acesso ao material de Spare, sua escrita convoluta e o contato
indireto ao seu pensamento, geralmente por meio de comentários de outras pessoas
ou via historiadores da magia, levaram a muitas más interpretações do pensamento
do autor. A ligação de seu nome à magia do caos, que surgiu na década de 1980,
acontece por ser ele a principal fonte dessa forma de magia — em especial, seu sistema de sigilação e algo de sua teoria do inconsciente e do funcionamento da nossa
estrutura psíquica. Foi uma decisão difícil dar ao projeto o nome “Arte e magia do
caos”, e eu imaginava desde o início que haveria críticas. No entanto, ao ver o quadro como um todo e analisar o desenvolvimento de suas ideias, não vejo que outro
caminho o pensamento inovador desse visionário poderia tomar. Além disso, se
pensarmos em como Spare fala sobre o caos em sua obra, ainda que não existisse o
que hoje chamamos de “magia do caos”, seria essa uma metáfora muito válida para
definir sua arte, que é mágica, e sua magia, que é artística. Cabe ainda ressaltar a
importância de irmos às bases, sempre, para poder reinventar e recriar o mundo,
um convite que o próprio Spare faz aos seus leitores o tempo todo. Para transgredir
e renovar, é preciso partir, com respeito e propriedade, do que veio antes. O título
do projeto, portanto, reflete uma via dupla: magistas do caos terão em mãos a fonte
primária; não-magistas terão em mãos um pensamento filosófico que dialoga com
a tradição e abre caminhos para o que viria depois, uma metáfora de como a magia,
em seu sentido mais poético, dá ordem ao caos sem deixar de ser desordem.
As conexões que se estabelecem de Spare com a psicanálise freudiana e a psicologia analítica de Jung são muitas. Nos últimos anos, a pesquisa acadêmica sobre
o autor tem se expandido, construindo pontes entre suas ideias e, especialmente,
filósofos franceses, como Gilles Deleuze e Félix Guattari, e ainda Jacques Derrida.
Não surpreende quando nos damos conta de que uma das principais fontes de
Spare para pensar o inconsciente tenha sido Pierre Janet, filósofo, psicólogo e psiquiatra francês cujas ideias influenciaram não só Freud e Jung, mas também todo
o pensamento francês de sua época e posterior. O magista já pensava o inconsciente, a repressão, a dissociação, antes de Freud. Eis, então, a magia do caos: em
Spare, vibra o espírito do passado aliado ao espírito do que ainda virá, e jamais de
uma maneira estagnada — esse espaço intermediário de produção segue um fluxo
constante, o que ficará claro nas páginas deste volume.
Desde a concepção da ideia e a união entre o desejo, a crença e a vontade de
realizar este projeto, foram muitos os contatos feitos pelo mundo todo de modo a
conseguir acesso não só às obras de arte, mas também a reproduções fiéis das primeiras edições dos escritos de Spare. Além dos trâmites jurídicos necessários com
o governo da Inglaterra e o Intellectual Property Office, firmamos três parcerias
basilares que nos permitiram fazer jus à memória de Spare e garantir a fidedignidade de fontes: Robert Ansell, da Fulgur Press, importante editora de ocultismo na Inglaterra que publica Spare desde a década de 1980; Jonathan Allen, do The
Magic Circle; e Michael Staley, da Starfire Publishing, que também publica Spare e
hoje representa o espólio de Steffi e Kenneth Grant.
Seguindo os mesmos passos de Spare ao publicar seu primeiro livro através
de um esquema de vendas antecipadas, a grandiosidade desta obra que você
tem agora em mãos só foi viável por causa do agenciamento coletivo. E desde o
início da campanha de financiamento, em outubro de 2020 — que contou com
o apoio de 856 pessoas —, até a escrita deste texto, salvo alguns percalços como
consequência da pandemia mundial que estamos enfrentando, todo o projeto se
desenvolveu numa somatória de agenciamentos fluidos, como se a mão do artista
e seus traços contínuos e sinuosos sinalizassem o caminho. O resultado é um livro
sem precedentes — é a primeira vez que se reúne toda a obra escrita de Spare de
que temos conhecimento até esta data, além de cadernos de desenho, ilustrações
e pinturas que abrangem toda sua trajetória artística. Foram 12 meses de trabalho
diário ininterrupto — temos certeza de que a frequência de Spare nos acompanhou
durante todo esse tempo, e agora é a hora de ela vibrar com vocês.
Esta edição não teria sido possível sem o amor e o empenho de uma equipe
integrada e mais que dedicada, à qual não me canso de agradecer. Bruno Costa foi a
primeira pessoa para quem ousei falar sobre esse projeto, e sem o envolvimento dele
eu não saberia sequer por onde começar. Bruno pensou e estruturou a campanha
comigo, e colaborou na tradução. Com ele veio Marcelo Miranda, desbravador,
para ser nosso porta-voz nas redes e contatos. Marcela Gontijo e Mariana Pacheco
formaram a melhor dupla na identidade visual da campanha e na capa do livro. Jorge
Miranda apostou no projeto desde o princípio e descobriu onde estavam imagens
que eu nem sabia que existiam. Mauricio Soldi chegou na hora certa para cuidar da
diagramação enquanto pôde. Gisele Eberspächer, Maíra Mendes Galvão e Adriano
Scandolara tiveram a coragem de se juntar a mim na tradução. Lucas Fier e Octavio
Stevaux trouxeram exatamente o que faltava para enriquecer a contextualização
da vida e da obra de Spare. Satwant Kaur Khalsa chegou para acender a luz da
consciência e colocar a coisa em ordem. Bibiana Leme e Douglas Mattos chegaram
com o cuidado, a atenção e o profissionalismo que toda revisão deve ter. Gabriel
Nogueira veio para encher a firma de energia, humor e renovação. E Marina Jordá
me reforça diariamente que é possível ir muito além, especialmente quando a
dedicação é genuína, de alma, ao nosso propósito e àquilo em que acreditamos.
Estendo com muita alegria os agradecimentos a quem abraçou esse projeto
com toda seriedade. Obrigado Diana D’Lunne, Erick Batista (Sagrado Círculo),
Fernanda Grizzo (Projeto Xaos), Jeff & Lucas (Bruxedo), Julio Soares (Fortuna
Arcana), Lua Valentia, Mar e Rogério Felipe (Deleuze Recombination), Marcelo Del
Debbio (Projeto Mayhem), Marcos Keller, Natasha Mirra (Círculo Místico), Octávio
Stevaux (Morte Súbita), Pam Ribeiro (A Bruxa Preta), Pedro Pietroluongo, Priscilla
Lhacer (Presságio Editora) e Victor Vieira (O Caos de Sempre), pela parceria ímpar
na divulgação e em lives; toda a turma do curso “O pensamento mágico de AOS”;
Ivan Morais, da Gráfica Koloro; toda a equipe do Catarse, em especial Raíssa Pena; Daniel Pellizzari, pelas conversas e apoio inestimável. Idelzite Bettoni, mãezona
mais que atuante; Antonio Neto, cujo amor e presença transbordam nesse projeto;
Fernando Linhares, pela escuta precisa; e, especialmente, Gurusangat Khalsa, que
me ensina diariamente, com Spare, que a integridade-de-si é o valor maior.
Robert Ansell, I can’t thank you enough for your support since our first phone
call: this book was only possible because you were the first to appreciate it and to
believe in us; Jonathan Allen, I’ll never forget your kindness of going out taking
pictures of London during lockdown; Michael Staley, thank you for your attention
and generosity; you contributed much more than you can imagine! Matt Lee, you
are a visionary. Alan Moore, thank you for your generosity and for reminding us that
art and magic are one and the same! Trinity Carson, thanks for chosing the red pill.
And art collectors around the world: together, you made this project one of a kind.
Austin Osman Spare, what is there to believe, but in Self? Your spirit survives.
Dedico esta edição a cada um de vocês que apoiaram o projeto. Se você não optou
pelo anonimato no momento do apoio, seu nome está aqui.”
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Especificação: Arte e magia do caos: obra reunida de Austin Osman Spare
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